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A importância da Retórica na Literatura

17/02/2005 às 14:24

A Retórica é, indiscutivelmente, um estatuto precioso para a comunicação. Ela está entrelaçada à Literatura. Logo a professora estabeleceu o tema, uma conclusão estalou rapidamente: É fácil. É fritar um segundo ovo dentro da gordura do primeiro. Simples não? Não! Não é. Mas também não é difícil.
Como entender aquilo que é simples e ao mesmo tempo é complicado? Pronto, um desafio está posto na mesa. A leitura dinâmica (por sinal, retórica) das apostilas fornecidas em sala de aula passa um pouco a borracha nas linhas turvas do entendimento sobre essa questão. Pelo menos alguns requisitos foram clareados: persuadir, escrever bem, oferecer uma boa escrita, saber argumentar e organizar as palavras e o pensamento a partir das formas de expressão. Isso é encarar a comunicação como algo valioso, como algo mágico, como uma responsabilidade e um trabalho sério, seja falando, seja escrevendo, seja se manifestando de outras formas.
A retórica é a “mãe” de qualquer apaixonado pelas letras. Ela está aí, forjada, discutida, rediscutida, exumada indefinidamente, maldita, bendita, enfim, já fizeram (os teóricos, os filósofos, os escritores, os professores, os orientadores...) com ela das tripas o coração. Resta-me, honestamente, ouvir, ouvir, ler e ler. As vezes eu imagino, poeticamente, a escrita e uma garoa fina. As palavras como pingos, lentos, mansos, constantes, se cessam ao final da chuva. Mas, vamos deixar essas variações para outra hora.
Persuasão é uma palavra ambígua, bastante ambígua. Em Retórica ela tem um significado do convencimento e se queixar convencer. Hoje em dia, persuasão lembra corrupção, “lobby”, alguns artigos da lei, enfim, ganhou uma dimensão refletindo o nível a que chegou a desintegração da sociedade, embora ela deva ser usada no sentido matriarcal, retórico, sempre.
Bom, para felicidade do leitor, o discurso teórico ajuda a alinhar melhor essa questão.
“Persuasão, ornamentação – objetivos retóricos, matéria da Retórica -, comparecem no texto literário (poesia, prosa) como destino: poema ou narrativa, Divina Comédia ou A Montanha Mágica, visa a persuadir o leitor da verdade que exprimem, por meio de ornamentos, ou recursos de expressão (metáfora, etc.; as figuras), segundo estratégias (deliberativo, judiciário, demonstrativo) armadas sobre regras ou leis de efeito. A beleza do poema ou da narrativa – sua validade estética – resulta de sua eficácia retórica, tenha o autor consciência ou não disso. Independentemente de ter sido escorraçada ao longo do Romantismo e movimentos subseqüentes, ou de haver tornado à praça nas últimas décadas, a Retórica está presente sempre que o escritor desempenha seu ofício: ars loquenti, ars scribendi, a Retórica identifica-se com a linguagem, da mesma forma que esta e o pensamento se unificam num só gesto; base de todo discurso, a Retórica é a fortiori a base de toda literatura”. (MOISES, Massoud. Literatura: mundo e forma. São Paulo. Cultura Universidade de São Paulo, 1982, p. 139).
Outro viés se torna elementar dentro dessa discussão:
“Os textos que Platão e Aristóteles consagraram ao estudo da Retórica têm um sentido político: dizem respeito aos perigos e ao poder da palavra, num momento em que a sociedade grega passa por grandes transformações. Não interessa ao nosso propósito discutir as diferenças de posicionamentos entre os dois filósofos; digamos, para simplificar brutalmente, que, entre gregos e romanos da República, a questão concerne diretamente à Polis” (FONTES, Joaquim Brasil. As Obrigatórias Metáforas. São Paulo, I lumineiras, 1999, p. 53).
Pois bem. Escrever sobre a importância da Retórica na Literatura talvez seja chover no molhado, pois, se a primeira é um pouco disso aí já dito, a segunda simplesmente não existe (em bom nível, claro) sem as qualidades matriarcais. Já naqueles tempos remotos Platão e Aristóteles se preocuparam em “organizar” o discurso e elevar a fala ao ponto que lhe é adequado e merecido, seria bastante oportuno (e talvez divertido, curioso) se aplicar essa mesma preocupação nos dias de hoje. A Retórica, para muitos políticos e autoridades, é a arte da demagogia, do subverter. Mas isso é um outro assunto.
“A Retórica é uma arte (no sentido grego: tékhme) que se ensina e que é importante para a sobrevivência das instituições. Com a queda das cidades-estados e o fim da República Romana, ela perde sua razão (ideológica) de ser: transforma-se em tarefa escolar, no sentido pejorativo do termo. Desaparece da realidade política, sai da assembléia popular e do senado para constituir-se em malabarismo verbal. Uma personagem de Petrôneo – e sua fala, embora satirizada, simboliza a queixa de toda uma oposição sob os césares – exclama, na abertura do Satiricon: Retores, vós matastes a eloqüência. Reduzindo-a a uma música vã e vazia, a jogos de palavras ridículos, fizestes do discurso um corpo sem força e sem vida”. (FONTES, Joaquim Brasil. As Obrigatórias Metáforas. São Paulo, I lumineiras, 1999, p. 53 e 54).
Os textos dados em sala inserem palavras chaves dentro desse entendimento: malabarismo verbal, aparelho retórico, argumentos arranjados em uma “boa ordem”, arquitetura do discurso, rigor, invenção, disposição, elocução, memorização, ação, a escolha judiciosa das palavras, metáfora, metomínia, desvio, linguagem como poder, adução de provas, discernir os meios de persuadir, comover, agradar e por aí afora. Então a Literatura é o espelho da Retórica, ou vice-versa. Como pensar em uma Literatura sem o mínimo arcabouço desses traços estatutários?
“Obtém-se a persuasão por efeito do caráter moral, quando o discurso procede de maneira que deixa a impressão de o orador ser digno de confiança” (ARISTÓTELES. A Arte Retórica e Arte Poética. Trad. Antônio Pinto de Carvalho. Rio de Janeiro: Tecnoprint, [s.d.]).
O estatuto defende a linguagem organizada e bela, isso fica claro. A linguagem científica sustentando esse “manual” é algo bastante rica, cheia de vocábulos, científica e, portanto, específica. Os bons filhos costumam obedecer as palavras sábias da “mamãe”, então nada mais sensato resta a um neoaventureiro senão debruçar sobre toda essa teoria e tomar consciência de que a caminhada é longa, de muita apreensão, desejo e paixão. A Retórica ensina a não se colocar o burro à frente da carroça. A linguagem não pode ser uma teia de aranha pós-vendaval. Ela exige estrutura, textura, firmeza, perseverança, força, conhecimento, labuta. As palavras, faladas ou escritas, são identidades quase que morais do homem. Qualquer impressão primeira se estabelece a partir delas.
Outros comentários, menos densos, observam a Retórica como a necessidade de se tornar o discurso eficaz e específico e que é difícil se chegar a uma definição precisa do recurso retórico. Surgida há dois mil anos, ela se mostra ainda incompleta, mesmo porque a linguagem é infinita e universal, a expressão possui uma fonte inesgotável de oxigênio. Para que a comunicação seja eficiente, deve-se ter objetivos pré-estabelecidos, mas não é a Retórica que estipula esses objetivos, eles devem estar colocados anteriormente para que ela seja possível. Ela é a busca do conhecimento dos meios formais que tornam possível moldar o discurso, a decodificação.
É lendo atentamente os escritos do Padre Vieira e de Luís de Souza que se observa uma Retórica imponente, polida, muito bem posta. O bem dizer, em dados momentos, para esses dois autores, é a arte do bem disfarçar, do desafiar o convencional, da vontade emanando da alma e do pensamento, apesar dos limites da censura. É zombar, com categoria e qualidade, do sistema vigente, das vozes uniformes que sustentam o Poder. É uma forma inteligente, bem tecida, intrigante e elegante de colocar o contraponto, sem ofender, sem magoar, mas desbravar, abrir horizontes. Nesse contexto, naturalmente, ela é pura Literatura.
“Limitemo-nos a estas observações teóricas e definamos a virtude do estilo: ela consiste na clareza. Sinal disso é que, se o discurso não tornar manifesto o seu objeto, não cumpre sua missão. Além disso, o estilo não deve ser rasteiro nem empolado, mas convir ao assunto. O estilo poético não peca talvez por ser rasteiro, mas não convém ao discurso. Entre os nomes e os verbos, os que comunicam clareza ao estilo são os termos próprios. Evita-se a baixeza de estilo e dá-se-lhe elegância, empregando todos os nomes que indicamos na Arte Poética. Desviar uma palavra de seu sentido ordinário permite dar ao estilo maior dignidade. O estilo excita igualmente as diversas impressões que os homens experimentam perante os estrangeiros e perante seus compatriotas”. (ARISTÓTELES. A Arte Retórica e Arte Poética. Trad. Antônio Pinto de Carvalho. Rio de Janeiro: Tecnoprint, [s.d.]).
O valor estético é função de uma estrutura original, como ensina Massoud. Reduzindo a Literatura à poesia.
“Definir assim a literatura como transformação da linguagem convém ao mesmo tempo ao sentimento moderno de que a arte é criação, e à observação antiga de que o homem não cria do nada: a criação poética é elaboração formal da matéria lingüística. De certa maneira, toda criação lingüística é criação artística na medida em que toda dialética de instauração é da arte. Particularmente, as qualidades de invenção, de originalidade, de viço, etc., que prazerosamente se tem reconhecido, desde o romantismo, nos falares populares, em gíria, em linguagem infantil, etc. – presumindo às vezes com exagero sobre suas possibilidades criadoras – dão certa consistência à idéia de uma poesia natural ou bruta, a correr pelas ruas, a percorrer os campos. Por outro lado, as línguas ditas precisamente naturais carreiam uma grande quantidade de expressões imagéticas, provérbios, comparações, fórmulas ritimadas, etc. – resíduos de criações poéticas deliberadas e espontâneas – em resumo, toda uma retórica congelada, mas suscetível de ser chamada à vida”. (MOISES, Massoud. Literatura: mundo e forma. São Paulo. Cultura Universidade de São Paulo, 1982, p. 32).
Mais do que isso seria dar fôlego à Retórica, viajar, sonhar e descobrir todos os universos possíveis a bordo de sua nave-mãe. Difícil colocar uma discussão sobre quem nasceu primeiro, se a Retórica ou a Literatura, pois, em dados momentos surge a impressão irresistível de algo gêmeo, acoplado, inseparável, colado, desafiador, maravilhoso, genial. A Retórica surgiu a partir da necessidade de se organizar a fala, as palavras e as idéias e a Literatura, sem esse alicerce, não passa de um amontoado de coisas inúteis. A importância, portanto, é algo nato, é algo tão óbvio que de tão simples acaba ficando meio complicado em um discurso teórico.
No frigir dos ovos, o fundamental é tomar consciência desse estatuto e utilizá-lo ao bel prazer para o deleite dos leitores e dos aventureiros que buscam uma vereda. Pelo menos uma breve convicção está posta. Estabelecido o rumo, mãos à obra, o pensamento agora está convencido da presença matriarcal da Retórica, uma aliada decisiva na arte de refletir, de organizar o pensamento e tornar o homem um ser inteligível e não apenas dirigível, descobridor e não retrógrado, arrojado e não medroso, com idéias musculosas e prontas para o bem servir, e não por músculos apenas nos braços, pernas e bíceps.
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