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Resenha

17/02/2005 às 14:25

Surfar sobre as páginas do livro de Regina Zilberman, "A Leitura e o Ensino da Literatura", foi como bater a face na dura realidade que está aí posta. A autora repensa uma situação com uma propriedade ímpar, levando-me a uma reflexão sobre o ensino que eu tive, sobre muita coisa que acontece a minha volta, sobre o hoje, e concluo: sou definitivamente filhote de uma sociedade ambígua, difusa, democrática, perversa, maluca, verdadeira, mentirosa. Seria mesmo o Mundo dividindo o Céu do Inferno?
Eu particularmente fico cada vez mais confuso e indignado quando sou levado a uma discussão desse nível. Não há o que questionar diante da rica pontuação feita pela autora, a não ser assinar embaixo. A princípio, ainda no primeiro capítulo, o livro foi reascendendo na memória conceitos esquecidos por mim. Falar em leitura, acredito eu, é falar em data de nascimento, ou seja, cada um pode ter um ponto de vista diferente. Existem perguntas com diferentes tipos de respostas.
Eu creio que o gosto pela leitura nasce com a pessoa. Existem aqueles que nunca viram um livro e olham-no com interesse; há outros com uma biblioteca às mãos e só enxergam a sujeira que está do lado de trás da vidraça. Evidentemente que a própria literatura e a didática possuem leituras próprias sobre o problema, uma investigação criteriosa. Há conceitos que ajudam a pontuar este e aquele aspecto, detalhar aquilo e aquilo mais, fazendo com que um mero e lunático surfista como eu corra o risco de se afogar em uma onda mais alta.
A formação do leitor e do escritor é, diga-se assim, uma praia paradisíaca. Talvez o leitor seja um escritor que não tem coragem de dizer suas próprias verdades e o escritor um teimoso que acredita em suas verdades e conjuga o verbo coragem em modos e tempos diferentes. Muitas vezes me pergunto: será que Homero realmente existiu? Virgílio seria apenas uma criação dos deuses astronautas? Fico caduco só de pensar em tudo isso.
Não há leitor sem empenho, força de vontade, interesse. Para se formar um leitor já se precisa de tudo isso (ou só isso?); imagine então os requisitos para ser um escritor...
Lógico que a escola é um ponto de influência, uma guarida do saber popular, mas não adianta: eu quero saber a fórmula mágica, a não ser a própria vontade, para fazer o coelhinho sair da cartola. Não se trata apenas de ficar no plano das desconfianças e das eternas dúvidas, mas enquanto não se enumerar valores mais concretos diante dessa discussão, valores de natureza humana, éticos, de liberdade, e sinalizar, bem claro e reluzente em tempos de apagões, o caminho entre o certo e o errado, não adianta mais apenas dizer, apenas escrever.
"(...) É nesta medida que a leitura, inserida no processo educativo, abre mão da neutralidade que detinha antes da universalização de seu exercício na sociedade. Traz embutida em si uma orientação democrática, que se dilata ou contrai conforme os propósitos dos grupos que recorrem a ela como parte de seus projetos de ação. E evidencia o conflito entre a imposição de determinada ideologia, importante para o bom andamento do mecanismo social, e sua vocação democrática, resultante dos efeitos que propiciou (...)" - (Zilberman, 1988, p. 27).
O trecho seguinte ajuda a reforçar essa idéia: "(...) Em vista disto, uma prática de leitura não autoritária, nem automatizada, relaciona-se fundamentalmente ao conteúdo da opção política que a orienta, assim como à valorização da natureza intelectual que ela porta consigo (...)".Zilberman, 1988, p. 27).
Lógico que a questão de se formar leitores em um Mundo tão díspare e regido por múltiplos interesses capitalistas, da burguesia, das influências externas, deve sempre levar em conta a produção popular. Mas a simples classificação de "coisa popular" já soa com ar de discriminação e nem sempre merece o devido valor em termos de incentivo fiscal, apoio dos governantes e espaço no calendário de eventos. Hoje em dia a tevê cria seus rótulos, heróis de barro, artistas que atendem às expectativas ambígua; a indústria cultural é uma fábrica para se gerar dinheiro fácil.
"(...) A leitura popular depende, nessa instância, de uma literatura que filtre e retransmita os interesses populares (...)". (Zilberman, 1988, p. 32). Eis a dica do que é preciso. Mas isso acontece na prática?
A autora discorre, mais adiante, sobre a produção industrial do livro, do avanço do serviço gráfico das editoras até a expansão da base formada pelo público leitor e coisa e tal. Lê-se realmente mais hoje em dia porque a população é maior e, sendo assim, nasceram mais pessoas apaixonadas pelo Mundo das Letras, sem entrar no mérito delas terem sido ou não despertadas para isso. Há centenas de títulos nas bancas, nas papelarias e livrarias, mas um montão de lixo cultural e nem sempre o leitor sabe discernir o ouro verdadeiro do ouro de tolo. As Sabrinas da vida, as Caras dos colunistas cor-de-rosa, levadas ao extremo da antítese pela nova turma do Pasquim com a Bundas, são publicações, salvo a revolucionária e corajosa alusão às nádegas, que refletem muito bem um público leitor burguês, sonhador (sonhador no sentido da boçalidade mesmo) e com questões mal resolvidas dentro do seu próprio ego. Nesse meio a literatura popular sofre a mesma marginalização do flanelinha de supermercado.
"(...) A concretização desse projeto depende de alguns fatores: de um lado, de uma política educacional; de outro, de uma política cultural. De um modo ou outro, trata-se sempre de uma decisão política, que vem sendo formulada de maneira distinta pelos diferentes tipos de sociedade (de menos a mais justos) impostos ao Brasil, ao longo de sua história, pelos grupos dominantes (...)". "(...) Uma política educacional que garanta a proliferação da leitura em todos os segmentos sociais, depende, em primeiro lugar, da existência de uma escola popular (...)" (Zilberman, 1988, p. 43).
Nesses dois tópicos a autora resumiu e disse quase tudo do que falta para se formar novos leitores neste País, isso sob o aspecto pedagógico porque eu continuo acreditando na idéia de que as pessoas nascem escritoras e também leitoras e o Mundo (a escola, a sociedade, o ambiente familiar, o círculo de amigos) ajudam apenas a requintá-las e a conhecerem os signos de conversação.
"(...) Os fatores históricos que atuaram na formação da sociedade brasileira explicam porque a cultura nacional circulou predonderantemente entre as elites e foi dominada pela influência metropolitana (...)" (Zilberman, 1988, p. 48). A análise mostrando o vaivém da cultura e da formação de leitores é apenas uma conseqüência histórica. A grande pergunta que deve ser feita é a seguinte: os governos estão realmente interessados em formar leitores críticos, cônscios do que acontece em sociedade? Talvez sim, talvez não.
A cultura seria um olho d'água que forma o ribeirão? Quanto a isso não tenho dúvidas...Para deixar ainda mais confusa e dinâmica essa discussão, devo aqui lembrar da escola privada que só existe graças à ineficiência dos governos no setor educacional, na intenção de aumentar ainda mais o buraco entre ricos e pobres em detrimento destes, obviamente.
Se a sociedade e os governos devem ir para a forca, uma conclusão natural depois de "pegar" as ondas do primeiro capítulo, no segundo capítulo a autora vai direto ao assunto:
"(...) A formação apressada do professor não poderia esconder seu despreparo, não apenas porque imperou a improvisação, mas principalmente porque seu backgroud cultural estava em desacordo com as exigências escolares (...) A solução foi trocar o docente por engrenagens que atuassem em seu lugar: uma metodologia que acreditasse em mecanismos auto-reguláveis, como a cibernética, que, na mesma época, fazia sua estréia na educação nacional; uma fachada de modernização, fornecida pela mesma metodologia, para encobrir a improvisação; e a adoção de técnicas didáticas que, por funcionarem sozinhas, podiam dispensar a interferência - e esconder as falhas - do professor: o estudo dirigido, a instrução programada e, last but not least, a solução que se mostrou mais durável e lucrativa - o livro didático, cujo imperialismo sobre as direções do ensino assumiu proporções até aí desconhecidas (...)" (Zilberman, 1988, p. 74) -engraçado, quase todas as citações estão no parágrafo quarto...há algo de mágico nisso?.
Volto à velha discussão: enquanto não houver interesse pela formação de pessoas livres, sem a imposição de torná-las úteis a uma sociedade de consumo, sempre haverá profissionais frustrados e, nesse caso, o professor que detesta ficar em uma sala de aula barulhenta, odeia escrever no quadro negro, só anda com os nervos à flor da pele com os alunos insolentes e que no final do mês passa uma raiva ainda maior quando recebe o salário. Os monges o são sem se preocuparem com o dinheiro e com os espinhos à sua volta; os voluntários trabalham pensando apenas em ajudar sem querer nada em troca, e os padres também não têm salário (apesar da vida boa que levam) e não se cansam de passar sermões para ouvidos moucos. A sociedade tem um sinônimo equivocado de organização. Ela é sim muito bem desorganizada.
O leitor é um passarinho que tem prazer de voar de galho em galho; o escritor é uma árvore frondosa que abriga muitos pássaros, um formigueiro dentro de si, esquilos em outras partes, minhocas em suas raízes, cascavéis em sua base, remédios em sua casca, usa uma cabeleira de folhas verdes e secas e ainda oferece sombras aconchegantes a todos que se aproximam dela. E é o vento, o senhor dos sopros, que se encarrega de limpá-la, oferecer novas inspirações e espalhar as sementes a outros rincões, auxiliado, obviamente, pelos pássaros.
O instrumentista Hermeto Pascoal, uma referência mundial, disse em uma entrevista que o sujeito nasce com a música. Por isso eu acredito que o escritor nasce com a pessoa e que o leitor é uma espécie de "multiface" dessa criação. De que adianta formar leitores apenas para as leituras de consumo? Ele vai ficar mais bitolado ainda. De que adianta formar professores apenas por uma exigência circunstancial e governamental? As crianças é que vão sofrer as conseqüências e detestar ainda mais a escola.
"(...) A precária situação experimentada hoje pela educação brasileira é atribuída ao estado de recessão e crise vivido globalmente ou, ao menos, em seus segmentos menos privilegiados, pela sociedade nacional. No entanto, ela resulta antes de opções feitas por programas de mudança que encaram o ensino como provedor de mão de obra mais bem qualificada para o mercado de trabalho e que o converteram, também a ele, em parte daquele mercado de trabalho (...). (Zilberman, 1988, p. 80) - quarto parágrafo, de novo!
É preciso dizer mais alguma coisa? A própria autora se coloca indignada com esse estado de omissões e negligências...
Até agora o raciocínio ficou centrado mais em leitores e escritores, mas é preciso ponderar a questão da literatura. A maior parte das pessoas confunde essa definição clássica e acha que qualquer manuscrito, uma lista de compras do supermercado, por exemplo, pode ter o valor de uma obra literária. Quando me coloco como uma pessoa com habilitação em Letras sinto um frio na espinha porque fico me questionando: de que adianta também enxergar as barbaridades, ter pontos de vistas próprios e não fazer nada para mudar essa triste realidade? Na verdade eu tenho procurado fazer sim alguma coisa, como a fábula do beija-flor que com seu bico tenta apagar o fogo da floresta enquanto os demais bichos fogem. Mas eu creio que posso substituir a minha prancha de surfe por um caminhão pipa e apagar uma parte dos incêndios criados pela sociedade de consumo imediatista.
"(...) O ensino da literatura é indicador do processo histórico, na medida em que, em primeiro lugar, converteu-o em literatura para o ensino, segundo uma visão pragmática e unidirecional que contraria o conceito de literatura - esta sendo criação autônoma e perene - que a própria universidade, através da Teoria da Literatura, advoga, talvez até como modo de defender-se dos avanços incontroláveis do mercado de trabalho (...)". (Zilberman, 1988, p. 142).
Na saia curta, é preciso dizer outra grande verdade: a sociedade está ficando cada vez mais louca e, diante desse quadro de hilaridades, há muitas discussões, apontam-se dezenas de caminhos, mas a busca pelo certo passa pela valorização do próprio homem e esse, infelizmente, vem sendo massacrado, espoliado pelo capital, pela globalização, pelo conceito de que a gente existe apenas para ser útil à sociedade. Não é à toa que existem tantos vagabundos que têm coragem ou desânimo suficiente para sê-los.
O futuro tem o limite da visão nua do surfista contemplando o mar. Há aqueles que imaginam uma ilha paradisíaca mais adiante, há os que vêem as ondas mais verdes, há os que calculam a velocidade das ondas, há os que se fecham no limite da contemplação e criam seus próprios mundos. O ser humano tem o cérebro e quando se tem um de verdade, até a morte se torna pequena e insignificante. Gosto, prazer, liberdade, interesse próprio. Princípios inerentes a qualquer surfista como eu que gosta de ler, de escrever e "pegar" todas as ondas possíveis.
* Trabalho apresentado no Curso de Especialização em Letras - Área de Concentração: Pós-Graduação Teoria da Literatura e Literaturas de Língua Portuguesa, na Disciplina Metodologia e Fundamentos do Ensino de Literatura da Professora Rosana Cristina Zanelatto Santos, na UFMS.
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