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Almas em Desencontro

17/02/2005 às 14:27

Luís Carlos Luciano (1)
Os Estudos Culturais oferecem uma rica discussão e, como tal, há muitos caminhos que podem ser delineados. Entendo que há um trânsito muito intenso de idéias, pensamentos, conceitos e teorias. A efervescência, a confusão, a liberdade plena e as tendências são gritos com diferentes ângulos para o raciocínio. Os assuntos mais polêmicos de hoje em dia encontram sempre no homem uma causa, uma resposta e uma atitude.
Alcançou-se um patamar de conhecimento interplanetário e marcado, felizmente, pelo infinito, desafiando o homem a sempre se aprofundar mais, a buscar aquilo que ele quer saber. Essa inquietação geralmente carrega consigo um forte interesse. Não há, ao que imagino, alguém com a capacidade de agir sem haver alguma motivação para tal.
O campo teórico vislumbra um cenário fascinante, belo, imperativo e infinito.
Esse nariz de cera (2) ajuda a pontuar, pelo menos dentro de uma breve visão, o porque de as pessoas, via de regra, lerem e não entenderem bem o que o autor quis dizer, por maior objetividade e clareza dada ao texto. Os Estudos Culturais, tendo como parâmetro de referência as movimentações e transformações sociais, tornam-se, portanto, marcados pela força do pensamento do homem. Ou melhor: pelo próprio homem.
O homem moderno tem a qualidade de velar suas palavras. Mas diante dessa discussão não se pode ignorar a figura dos homens que não carrega o peso do livro dentro de si e, portanto, enxerga a responsabilidade sob ângulos diferentes, mais modestos.
“(...) a velha crítica de gosto que defende um espaço autônomo para a grande arte (...)”. CEVASCO, Maria Elisa. Máquina de Moer Oposições (Veredas)
Felizmente há essa profusão toda. O que não há, infelizmente, é união entre as pessoas. Exatamente por significar tão pouco, não se dá o devido valor e respeito para tal. O homem se divide de maneira geográfica, existencial, se esconde sob cortinas de arrogância e egoísmo, salvo as exceções obviamente. A Sala dos Deuses é um ambiente inatingível para o sujeito privado pelas informações. Pelo fato delas terem sido postas, de maneira proposital, em degraus altos dentro de uma escala de valores, o homem não resiste e perde o fôlego. Aliás, todos acabam, mais cedo ou mais tarde, sendo vencidos pelo cansaço nessa empreitada...
A ambigüidade é um deleite para as palavras do homem. Cada um tem o direito de falar aquilo que lhe acha conveniente, reivindicando direitos em uma sociedade que se organiza sob o espírito da cobrança e do tráfico de influência.
Por mais que a pobreza limite o homem ao absurdo da existência, é incrível a dinâmica das vozes que se contrapõem, se solidarizam, se intimidam, se curvam uma à outra, se sobrepõem, dominam e se deixam dominar. Um parque de diversões pode ser visto como exemplo dessa profusão de significados, como uma comunhão absoluta, um balé de andorinhas que voam, voam, dificilmente se trombam e depois se regozijam sobre a árvore mais frondosa, como um encontro de almas em estado físico diferente.
De certa forma, é cada um reivindicando o seu próprio espaço, é cada um calçando o seu próprio par de sapato – quando o tem, naturalmente. Os negros denunciam com toda a razão a discriminação, a raça precisa imperativamente exigir respeito, as minorias devem dar o grito da exclusão para romper a barreira dos ouvidos moucos.
“A primeira coisa que me agrada nos Estudos Culturais é apresentarem-se como estudos. Instala-se, imediatamente, uma provisoriedade, uma abertura que me parece indispensável no momento de questionamentos, de necessariamente assumir-mos dúvidas deste fim de século”. RESENDE, Beatriz. A Politização do Saber (Veredas).
Eu demoro a dizer o meu humilde apelo: a elite pensante precisa urgentemente se unir mais, não apenas em saraus com a presença daqueles que se deleitam com esse prazer. O grito da independência ainda está por ser dado.
Voluntários de boa causa, inquietai-vos!
A luta entre a classes, do pobre e o rico, do patrão e empregado, pode continuar rendendo esse mar de hostilidades. Todos são anjos de um mesmo Céu, seres humanos que, tementes ou não a Deus, um dia não sentirão mais dor. A maior maravilha do homem é não sentir dor, não ser olhado com o ranço da discriminação, da humilhação.
Então por que tanta indiferença, tanta desigualdade, tanta amargura, tanta concentração de riqueza, tanta individualidade, tanto juízo equivocado de valores?
A riqueza deve estar a serviço do bem estar social, a cultura deve ser o ponto de partida para os diferentes níveis de reflexão. As tribos sociais se agrupam sob uma redoma de interesses mútuos dada a indiferença de governos, da sociedade e da própria necessidade de cada dia mais criar fatos culturais.
Recuperar a amizade, a humildade, a solidariedade e outras qualidades que deveriam ser inerentes à maioria dos homens, hoje não faz parte do afazer do dia-a-dia. O cotidiano do homem é marcado pela fina flor do esquecimento. Ouvir os próprios “eus” e conversar despretensiosamente com a própria alma é uma atitude pouco comum, infelizmente.
Há um claro desencontro de sentidos, de almas, um vaivém de pensamento e de energia conflitantes. O sujeito moderno deveria ser aquele que respeita o seu próximo e vive em harmonia em seu meio; aquele que deveria aprender com o semelhante, com os pássaros, com os animais, com as parábolas; aquele que deveria buscar a informação para evitar dissabores e se relacionar melhor; aquele que deveria viver eternamente antenado com a divindade; aquele que deveria ensinar, ensinar, ensinar novamente, aprender, mostrar o caminho, mas não se sentir responsável pelo descalabro.
Deveria ser aquele cujos ouvidos escutam a própria alma. Então enquanto as tribos se organizam para mais um dia de desencontros e os Estudos Culturais refletem para isto e aquilo e “saboreiam” o vento forte que sopra da Europa e de outros países mais evoluídos culturalmente, aqueles que ditam as normas para os demais, o homem se afasta do próprio “eu”. Ele parece não preocupado em encontrar a paz consigo mesmo e, por extensão, com seus semelhantes. Ele busca outras formas de amadurecimento e, assim, continua imaturo e sofrendo.
Todo o conhecimento deveria estar a serviço de um bem estar maior, de uma utopia segundo a qual o homem pode, deve e precisa viver em harmonia, e não se revestir unicamente sob a toga de tribos e grupos corporativistas que hoje dividem o convívio social. O homem é um ser privilegiado por natureza, é um anjo revestido por um corpo, é um ser dividido entre a tentação do mal e a necessidade de se praticar o bem. A sociedade evolui sob a óptica do conhecimento. A tecnologia é fruto do desafio do gênio insaciável. O homem possui capacidades infinitas, boas e más, mas há algo que o atrapalha muito: a síndrome do egocentrismo, aquele sentimento individualista que o faz agir impulsivamente sob as luzes do rótulo social capitalista, onde uma pessoa é vista e respeitada pelos zeros da sua conta bancária.
“É na pluralidade cultural, no reconhecimento das diversas subjetividades, nas múltiplas identidades, na certeza de que, por exemplo, não existe uma literatura brasileira, mas muitas literaturas brasileiras, que está a possibilidade de se reconhecer o complexo, o diferente, o outro”. RESENDE, Beatriz. A Politização do Saber.
Como se falar em literatura, como se buscar o âmago do pensamento deste século, como discutir a fértil e enganosa imaginação sem antes se preocupar e tentar se resolver as questões básicas da existência? Cultura de minorias, no meio ponto de vista, é enxergar a dura realidade das ruas e se fazer alguma coisa para mudar, para melhor, obviamente, esse cenário, como o pintor com os pincéis nas mãos que pode dar rumo às tintas conforme o seu próprio deleite.
O rapper canta o desespero dos morros e denuncia a sirene sangrenta da polícia, o artista plástico cria formas e estabelece arco-íris e figurações para expressar o seu sentimento, o escritor corre atrás do comparativismo e do castelo mágico e misterioso das palavras, o desenhista traça curvas, retas e contornos da existência e o pensamento, esse senhor absoluto, é tão infinito, sedutor e assustador como as ondas do mar. A alma do homem, em meio a tudo isso, é uma pluma perdida em vento aberto.
Há uma absoluta falta de boa-fé.
“Em vez de produzir conhecimento ou denúncia, este crítico dedica-se à conservação do patrimônio e a defendê-lo de manchas indeléveis, tais como sua vinculação ao mundo real da economia e da política. É deste campo dos guardiões do bom gosto que se podem esperar os ataques mais estridentes, mas também os menos produtivos, aos estudos de cultura”. CEVASCO, Maria Elisa. Máquina de Moer Oposições.
Já que a proposta é se buscar o politicamente correto, é preciso se dar um tempo ao erudito. Primeiro é preciso se arrumar melhor a casa, ou melhor, o Mundo em que vivemos. E é aí que a elite pensante pode ser determinante, magnífica. Lógico que ninguém tem a fórmula mágica para se equacionar os problemas, pois, isso transcende os limites dos pobres terrestres-mortais. Também seria uma ingenuidade querer remar contra as manifestações populares ou então desviá-las do seu prumo original. Não se trata de impor novas barreiras, mas definitivamente derrubar as portas da ignorância, do não saber, da falta de opção e da marginalidade cultural.
Os artistas podem interferir mais no cotidiano das pessoas e nos segmentos que dominam, ditam regras e impõem seus próprios interesses. Quem sabe se formar um partido político fundamentalista, ou, uma idéia maluca talvez: o partido do “eu”, ou o partido dos que querem reencontrar a própria alma. Recorrer às próprias regras do sistema para subvertê-lo. Quer dizer: melhorá-lo. Os Estudos Culturais devem ter a preocupação com o homem.
“Os trabalhos fundadores em Estudos Sociais foram os de Raymond Williams (Culture and Society) e de Richard Hoggart (The Uses of Literacy), de 1958. Os dois intelectuais marxistas, originários da classe operária inglesa, organizaram o decisivo Center for Contemporány Cultural Studies, em Birmingham. Em seu famoso dicionário de conceitos, Keywords, Williams afirma que cultura é uma das duas ou três palavras mais complicadas em língua inglesa. Talvez por isso tenha passado a vida tentando defini-la ou redefini-la. Aos dois logo se junta o sociólogo jamaicano Stuar Hall, trazendo consigo a questão da diáspora, a discussão dos conceitos de raça, etnia e os efeitos do colonialismo sobre as sociedades no Novo Mundo. Hall, que define os Estudos Culturais como uma formação discursiva, no sentido que Foucault dá ao termo, continua sendo o mais provocador pensador do tema. E o mais polêmico, especialmente quando aponta para a morte do sujeito moderno, afirmando que o sujeito, que anteriormente tinha experiência de uma identidade unificada e estável, está se tornando fragmentado, composto, não de uma, mas de muitas identidades, algumas vezes contraditórias ou não resolvidas”. RESENDE, Beatriz. A Politização do Saber (Veredas).
Pois bem. A intenção aqui é mostrar um caminho pouco trilhado, ou seja: a elite pensante se colocando a serviço de um bem estar coletivo e, no bojo dessa questão, não se esquecer de inserir a discussão sobre o sujeito e sua alma, a existência e o fato de que a inteligência, a atitude e a força de vontade são determinantes para se mudar conceitos, para desmoronar a parafernália de equívocos que se instalou no meio de uma sociedade que busca no vaivém muitas coisas ao mesmo tempo e, dada a essa ganância, às vezes não chega a lugar nenhum.
O homem está, por mais que alguns relutem em aceitar, alicerçado em um tripé: mente, corpo e alma. O resto é conseqüência, desdobramentos da genialidade e da busca de um melhor lugar ao Sol. Seria cômodo também os pesquisadores, cientistas, teóricos, enfim, os voluntários da boa causa, aguardarem seus discípulos em universidades e templos de comoção. É preciso ir de encontro àquele que ainda não encontrou um rumo para sua vida. Essa é a contribuição que se deve dar à humanidade. O homem moderno deve ter essa visão e os pensadores de plantão não podem se furtar para essa realidade, para esse clamor que vem das ruas. As tribos se agrupam não apenas por afinidade e pela busca de direitos, mas porque assim se sentem mais seguras e acham que podem lutar em igualdade. A desigualdade desmancha os sonhos, arrebata as esperanças, encerra os sorrisos e torna o humor, sarcástico.
“(...) O que vemos: há uma pulsão que me leva a fazer como o outro. Eu não existo formalmente a não ser sob o olhar do outro, senão graças ao olhar do outro. Isso é o contrário do indivíduo, do individualismo; é verdadeiramente uma outra maneira de pensar o laço social (...)”. MAFFESOLI, Michel. Um Desenho Geral da Pós-Modernidade.
Protestar é um direito; a liberdade de expressão é inegociável; viver bem é uma necessidade; a fome é inadmissível; o espaço para o convívio e o relacionamento são sagrados; a alma é gratuita, generosa; o pensamento tem as asas de um passarinho; o homem é o pulsar da própria vida. E alguém mágico, divino, grandioso e muito superior, proporciona tudo isso e não pede nada em troca, nem mesmo o silêncio da morte. Somente o homem pode se ajudar. O resto é derivação do pensamento e da arte de teorizar. E quem tem o conhecimento não pode ser egoísta o bastante para levar para o túmulo tudo aquilo que sabe e muito menos técnico o bastante para deixar suas idéias registradas em livros. A praça pública ainda é o melhor local para se começar uma revolução por uma boa causa.
A minha alma se diz contente. Sem ela, eu sou apenas um cadáver em processo de putrefação, alimento para os vermes.
“Se pensar o mundo significa tentar apreendê-lo através de um ponto de vista, a grande particularidade da obra de arte é a perspectiva exótica dessa percepção. Os formalistas russos cunharam o termo estranhamento para definir a função poética, ou modo particular da percepção artística, que pode ser resumido como a capacidade do autor de destacar o objeto do contexto (...) Simbolizando o nosso próprio desterro no universo, a nossa distância entre as palavras e as coisas e nós mesmos, a linguagem poética é o transmutar-se de um exílio que cessaria, se cessasse o suplício da busca”. NOLASCO DOS SANTOS, Paulo. Nas Malhas da Rede (Pág. 129).

BIBLIOGRAFIA

CEVASCO, Maria Elisa. Máquina de Moer Oposições, Veredas
MAFFESOLI, Michel. Um Desenho Geral da Pós-Modernidade
MENEGAZZO, RODRIGUES, ROSA. Maria Adelia, Idara N. Duncan, Maria
da Glória Sá. Memória da Arte em MS-Histórias de Vida – Campo Grande,
MS: UFMS/CECITEC, 1992.
NOLASCO DOS SANTOS, Paulo Sérgio. Nas Malhas da Rede: Uma Leitura
Crítico-Comparativa de Júlio Córtaza e Virgínia Wolf. Campo Grande,
MS: Ed. UFMS, 1998.
RESENDE, Beatriz. A Politização do Saber, Veredas
 
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