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O aprendiz de Ermitão e seu pré-diário de significados

17/02/2005 às 14:33

Luís Carlos Luciano*

Dias atrás avistei Yasmin, de um ano e dois meses, sozinha, no quintal da frente da casa, com uma vassoura nas mãos tentando varrer uma pequena porção de terra trazida pelas formigas. Quando ela me viu, tentou disfarçar o gesto como se eu fosse repreendê-la, olhando desconfiada em minha direção, para a vassoura e para a terra, simultaneamente. Naquele momento, encarei a cena com a ingenuidade de uma criança.
Depois, quando pensava em uma introdução para este texto, aquela mesma imagem me veio à mente e fiz uma relação dos significados. Na minha concepção, fiquei imaginando que minha neta aprendia rápido. Acredito que ela deve ter visto a avó ou então a mãe varrendo o quintal. Quem sabe dentro da sua ingenuidade, tenha pensado em outra coisa ou feito associações diferentes, criando, em seu particular Mundo, o seu próprio significado. Impossível saber exatamente o que se passou no cérebro daquela criança porque ela nem sequer fala.
Se o homem vê e estabelece significados, fico então com meus botões imaginando uma feira de sentidos, de imagens, de correlações, com isto se misturando àquilo, com aquilo querendo ser muito mais do que um pronome.
Fiz anotações durante as férias, escrevi aquilo que me veio à mente, sem rebuscamentos, sem a preocupação em relação às formalidades de praxe. Escrevi apenas o que brotou da alma, do coração, dos pontos mais obscuros do meu pensamento, futilidades, inquietações, desgostos, prazeres, aflições, defeitos, virtudes, hesitações, enfim, traços do meu próprio Hamlet. Quis ver como seria a relação entre eu e o diário. Depois da coisa meio amadurecida, me encorajei (seria ousadia ou tolice?) a apresentar estes escritos.
Aproveitei os locais por onde passei durante as férias, o ambiente à minha volta, a leitura que meus olhos desprovidos de preocupação e com tempo para o ócio fizeram daquele momento, sem pressa, sem atropelos, apenas tentando desabrochar aquilo que está dentro de mim, estabelecendo meus próprios significados para este corpo em frenética ebulição e inquietação. Para ilustrar, apoderei-me de frases soltas de Manoel de Barros e de alguns dos meus professores. Contextualizei o tempo dentro deste texto, brincando com o ponteiro das horas para frente e para trás...Eu entendo que criei significados para aquilo que a gente vê, interpreta e expressa, e é isto que eu apresento com grata satisfação.

2001
8 de julho
16 horas. Escuto The Doors. Uma insegurança brota no ar. Os toques fragilizados e vagarosos tentam encontrar sentidos. A mente quer dizer alguma coisa e o esforço físico se acha na razão de questionar, de eliminar sua chance, porque o cabo de martelo fica chamando a atenção dos meus olhos. Entre um achar e não achar, um mundo confuso se apresenta no rodapé. O texto sóbrio é um dissimulador. Por que escancarar a própria realidade como se olhar no espelho? Poucos tique-taques depois, abro a geladeira. O som agora é do Barão.
24 horas. O que eu posso dizer? Não há nada além da minha imagem pálida diante da Remington 12 amarela. O som da tevê chega de maneira convidativa. Fico sem saber se vou lá ou fico aqui. O tique-taque passa olhando à esquerda.
9 de julho
0h30min. Você fica aqui me desafiando a dedilhar estas poucas forças. Travei...Não consigo mais ler, não consigo saber o que dizer e fico preocupado em não dizer. A minha relação com a máquina é diacrônica, crônica, afônica, biruta. Os meus eles, emes com os pés no chão, is retilíneos. O que o “w” tem a ver com o “y” é um “q” onde o “j” não se mete.
10 de julho
Início da noite. A máquina ficou encostadinha ao lado do armário da cozinha, olhando para todos os lados ou para lado nenhum. Ela não tem culpa de nada. A idéia da pescaria está dando certo, criando expectativas óbvias, porém emocionantes...Quem sabe olhando a terra de perto me sinta melhor do que já estou.
20h10min. O que há em mim além da vontade de abrir a alma? Existe um dedilhador. Escrever sob a sombra de um copo de cerveja também me faz tomar um gole dela. O silêncio volta a ocupar espaço no caminho da minha indecisão. Os meus filhos estão na rua. A minha conversa é um resumo longo, talvez infindável...O arroto me ajuda a jogar as coisas ruins para fora.

“A percepção da realidade varia conforme o lugar que o indivíduo ocupa no espaço físico, econômico, político, sócio-cultural. Não se pode, pois, falar de um real estático, pronto, pré-construído. O real é fruto de um processo de relações do homem com os outros homens e com a natureza (...)”. (Graça Paulino. Ivete Walty. Teoria da Literatura na Escola. Belo Horizonte, p.19. Editora UFMG, 1992).
12 de julho
O Bigode amola o facão. Ontem à noite a chegada foi marcada por uma surpresa um tanto assustadora. Depois de muita chuva pelo caminho, da derrapagem na estrada de terra, da indecisão se íamos ou não, finalmente pisamos em terra firme. Fomos procurar panelas nos barracos, em uma área do outro lado do rio, e chegando lá, diante do breu absoluto, fomos recebidos pelas formigas. Entramos no meio de uma correição. As formigas nos pegaram em cheio. Só fomos percebê-las depois de tomados por elas. Tive que me livrar rapidamente das roupas e sair correndo daquele local...
Uma noite longa veio em seguidaela frente. Uma insistente dor lombar me persegue, tirando-me o ânimo. O almoço foi gostoso. A fome cria desejos imperceptíveis para quem não a sente. O Careca cometeu uma presepada. Por azar, o cabo da panela com o charque quebrou na mão dele. Toda a carne caiu no chão...
Agora, início da tarde, encontro-me sozinho no barraco, olhando o horizonte perdido...Para ser um ermitão é preciso ter muita vontade. Uma insegurança me acompanha. Aqui, cada minuto é um nada por fazer.
“Ler, criticamente, não significa ler sem prazer, antes, o prazer, como já foi dito, advém da luta, do corpo-a-corpo. Mas não é um paradoxo? Penetrar no texto, senti-lo e, ao mesmo tempo, afastar-se dele o suficiente para, às vezes, desmascará-lo? Não é verdade que o amor é cego. O amor cego é alienante e alienador. Assim também a leitura cega, a leitura dócil. Ler é travar um duelo com o texto ou no texto enquanto campo de batalha, não com o objetivo de destrui-lo nem deixando-se destruir por ele; mas com o objetivo de dialogar, de interagir, de promover trocas (...)”.(Graça Paulino. Ivete Walty. Teoria da Literatura na Escola. Belo Horizonte, p.22).
O barulho dos pássaros, do Rio Serrote e do vento sobre a lona enche-me de estranhices. O silêncio abre uma cortina. A cidade fantasma dos barracos oferece a leitura da extrema improvisação. Percebe-se o modo de vida da gente que por aqui passou.
A descrição fere o sentimento da percepção e até mesmo o escrever se torna monótono. Acho que o tédio se instalou em mim. Preciso apender a dialogar com este sentimento todo. Este bucolismo é capaz de enlouquecer qualquer um... O Bigode não tem medo do mato. Ele tem mais jeito para ermitão. Ele não tem preguiça para correr atrás do peixe. Já faz um bom tempo que ele e o Careca saíram.
13 de julho
A noite foi bastante fria. O nosso guia voltou decepcionado pela manhã. Nenhum peixe.
Dormi bem melhor. Por volta da 1h30min o Bigode me chama. Achava que eu estava dormindo. Jogamos conversa fora. A preocupação era o sono abandonar-nos. Antes levantei-me para um mijão. A lua estava linda, imponente, fazendo daquela madrugada um quase dia. Tive que tomar um Passiflora. Só assim o sono reapareceu. Tive dois sonhos com atmosfera de pesadelos.
O Bigode me tinha dito que sonhou com o barraco pegando fogo e que era o maior piseiro. Sonhei também com fogo, não me lembro em qual situação. Lembro-me apenas de que algo ardente coreografava o ambiente. Depois, com formigas. Mas em um local diferente, com aquelas e outras formigas. Tive um terceiro sonho. Um sujeito tinha feito algo que me desagradou. Disse-lhe então um monte de besteiras. Ele quis me pegar, me dar um tiro. Pedi ajuda a um grupo de orientais, estávamos em um clube.
“Sei que fazer o inconexo aclara as loucuras
Sou formado em desencontros.
A sensatez me absurda.
Os delírios verbais me terapeutam.
(...)
As antíteses me congraçam”
(Manoel de Barros, Livro sobre o Nada, p. 49).
O Bigode pula cedo. Tem uma disposição admirável. Volta com a informação de que não havia peixes fisgados. Vai a outro extremo do rio com as varas. O sol tímido da manhã é encoberto por nuvens escuras e o vento sopra o frio sobre nós.
Fiz um arroz da hora, com bastante alho, cebola e óleo. A cidade de lona abandonada continua com seus fantasmas que a gente não consegue ver, apenas sentir.
O Ermitão tem que aprender a conviver com o medo de cobras, aranhas, lacraias e outros bichos. O tempo indica chuva.
15 de julho
Por volta das 11h30min. Encontro-me sentado em uma cadeira de varanda, sossegadamente, contemplando o ontem e o hoje.
Na madrugada anterior, levantei-me e uma tremenda neblina cobria o horizonte. Os pingos que escorriam da árvore sobre a lona faziam o barulho de uma fina e mansa chuva. Ficar de cócoras é uma posição que já tinha me esquecido. As pernas doem. É uma situação que o ermitão não tinha pensado.
Bigode vai rever os anzóis. Sempre com o facão, volta triste com a falta de peixes.
Careca ainda dormia. Levantou-se e foi esquentar a comida. Depois começamos a arrumação para a aventura de volta.
Chegamos a Dourados, sãos e salvos, às 13 horas. Às 15 horas, pegamos (eu, a Lourdes, o Júnior e o Caíque) a estrada para Terenos. Paramos em Terenos às 18 horas, uma distância de 230 quilômetros.
O Valter não estava, a Lídia encontrava-se no banho. A casa decorada pelo apagão.
Neste exato momento o relógio aponta 12h30min. O Valter e a Lídia estão em um evento esportivo. A cadeira vermelha onde descanso os pés provoca-me a leitura por intermédio das cores.
“Ler seria, em última análise, uma atividade que propõe a proteção dos significados originalmente depositados no texto por seu autor (...) É o impulso que leva o homem a buscar a verdade, a fazer ciência e a formular teorias, segundo Nietzsche, não passa de uma dissimulação de seu desejo de poder, conseqüência de seu instinto de sobrevivência e de sua insegurança enquanto habitante de um mundo que mal conhece e que precisa dominar. O homem inventa verdades que tenta impor como tal a seus semelhantes para se proteger de outros homens e de outras verdades, e para sentir que controla um mundo do qual pode apenas saber muito pouco” (Paulo Vizioli e Nelson Ascher, Tradução, Desconstrução e Psicanálise, p.16)
O patrulheiro flagrou-me ultrapassando em faixa contínua, ontem, logo na saída de Prudêncio Tomaz. Na abordagem, constatei que tinha esquecido em casa o documento do veículo.
O Bigode disse-me, pouco antes da saída do acampamento, notando a minha ansiedade, que ele, particularmente, demorava a sair, mas não tinha pressa para chegar...
Bebi quatro caixas de cervejas durante o tempo em que permaneci no acampamento. Tenho mais uma no congelador.
A noite anterior foi mais cômoda. O conforto só é reconhecido por aquele que não o tem. Eu acho que é entre 14h30min e 15 horas. Li este relato para as pessoas presentes (a Lídia, uma manicure, o Valter, a Lourdes e o Caíque).
16 de julho
Às 8h40min. A pescaria vinha sendo amadurecida há algum tempo, desde quando os sem-terra se encontravam no acampamento.
O Careca é um jovem bacana. Silencioso, é um companheiro que estava sempre pronto para ajudar.
Naquele dia em que permaneci várias horas sozinho no acampamento, tive sensações estranhas. A respiração parecia querer escapulir pelos braços. Um vazio, um tudo e um nada ao mesmo tempo. A alma agitava-se em uma redoma de mistérios. A idéia da morte era um zoom que ia e voltava.
O pessoal gostou daquilo que li ontem. Deram boas gargalhadas quando me referi à posição de cócoras...se contasse sobre a melodia dos puns...
As lembranças do acampamento me aparecem de maneira fragmentada, generosamente.
“O significado de um texto somente se delineia, e se cria, a partir de um ato de interpretação, sempre provisória e temporariamente, com base na ideologia, nos padrões estéticos, éticos e morais, nas circunstâncias históricas e na psicologia que constituem a comunidade sociocultural (...) O que vemos num texto é exatamente o que nossa comunidade interpretativa nos permite ler naquilo que lemos, mesmo que tenhamos como único objetivo o resgate dos seus significados supostamente originais (...)” (Paulo Vizioli e Nelson Ascher. Tradução, Desconstrução e Psicanálise, p. 19).
Na noite anterior voltei a ter sensações estranhas. A respiração parecia querer acabar, perder força. Hoje cedo já liguei para o jornal, pedindo a gentileza do meu documento ser enviado no malote para o escritório de Campo Grande.
Um pássaro com canto forte está escondido no pé de manga. Não consigo vê-lo. Parece que ele me observa.
A Luzia tem um monte de roupas para lavar. Um belo tucano passa neste momento em meu horizonte. O som estridente do pássaro atrai a atenção da Lourdes e da Luzia.
Na noite em que cheguei a Terenos, conheci um homem no bar do ginásio de esportes. Ele só vendia cerveja ou refrigerante a quem tivesse o dinheiro trocado porque ele simplesmente não tinha troco. No final de uma partida de futsal, perguntei-lhe se o evento tinha acabado:
- Não, não acabou.
- Até que horas vão esses jogos?
- Até a hora que acabar...
- Mas a que hora acaba?
- Aí eu não sei...
As dores lombares quase que desapareceram por completo. Desde o dia 12 estou escrevendo de próprio punho. O varal cheio de roupas faz-me retroceder. Lá no mato tinha o rio como alento contra a máquina.
Já são quase 11 horas. Fui jogar sinuca com os garotos e ver o Zé Pretinho. Estou de volta à cadeira da varanda contemplando várias coisas ao mesmo tempo.
16 horas. A embriaguez me faz ver nuvens nos diferentes níveis de interpretação, formatos estranhos no céu. Não tenho obrigação de escrever por escrever, penso. Mas sim de ex, de crer e de ver...
17 de julho
Ontem foi um dia agitado. O Júnior da Lídia é bom de copo, bom companheiro, bom papo. Conversamos sobre vários assuntos, inclusive sobre os meus textos. Ele estuda Engenharia da Computação. À tardinha, chegou o Nilson. Não o via há tempo. Fomos no Cicinho para mais uma rodada de cerveja. Ele recordou sobre a morte do pai, uma coisa triste. Pelo menos o velho não sofreu muito. Antes do Nilson chegar, eu e a Lourdes, coincidentemente, tínhamos ido ao cemitério. Sensações estranhas. O contraste entre a vida e a morte.
Hoje cedo liguei para o escritório em Campo Grande. Meu documento chegou.
À tarde, fomos (eu, o Valter, a Lourdes, o Júnior e o Vander) à capital. Percorremos o Parque dos Poderes, o shopping e, finalmente, peguei o documento do carro. Ufa, que alívio!
Neste momento já é noite, por volta das 20 horas. Estou no quarto ouvindo o barulho da tevê e o som do Bee Gees, que vem do quintal, onde a turma joga truco. Sinto-me vazio ao escrever. A leveza traz-me carência de sentidos.
“Carrego meus primórdios num andor.
Minha voz tem um vício de fontes.
Eu queria avançar para o começo
Lá onde elas ainda urinam na perna.
Antes mesmo que sejam modeladas pelas mãos” (Manoel de Barros, Livro sobre o Nada, p. 47).
19 de julho
Perto do acampamento existe uma construção centenária, na fazenda de Modesto Brock. Contam os mais antigos que naquele casarão nasceu Wilson Barbosa Martins. Fica na área rural de Rio Brilhante, próximo à Usina Passatempo.
Perdi novamente a vontade de escrever. Hoje é meu aniversário, um dia sem graça como qualquer outro. Deus fê-lo bonito e eu com a mania de enfeiá-lo. Os 40 invernos dão uma biografia longa.
Reli tudo que escrevi até agora no diário. Um quintal de dúvidas se instala no meu imaginário.
Ontem um tucano veio acordar-me – aliás, eram quatro deles em um pé de mamão no fundo do quintal. O vento sopra absoluto. A criatividade pode ser comparada a uma gaveta, como a do armário que eu vejo em meu quarto. Pode-se abri-la e retirar uma pequena peça de roupa. Abri-la ainda mais e retirar um cobertor e até arrancá-la do lugar. Ou então mantê-la fechada, escondendo tudo que existe dentro dela.
16 horas. Recebi notícias de Dourados. As coisas por lá estão no mesmo lugar de sempre/ Ontem à noite tive uma grata surpresa no Bar do Zé Pretinho. Um homem se apresentou como sendo Aluízio Luciano Filho. O nome do meu pai é Aluízio Luciano. Se não fosse pela idade dele, dava para pensar alguma coisa diferente. Outra coincidência: o nome do filho dele é Luís Luciano.
Fiz alguns contatos. Pode dar certo um passeio a Bonito.
20 de julho
Uma noite animada a de ontem. A Lourdes fez um robusto e substancioso pucheiro. A Lídia surpreendeu-me com um bolo de aniversário. Foi uma comemoração dupla. A minha querida Lourdes fez aniversário anteontem, um dia antes de mim. Eu comprei um singelo presente para ela. Um colar de um material que não sei o nome. Naquela pequena loja de Terenos, perguntei à vendedora se ela tinha um bóbi, apenas um. Ela quis saber para quê. Era para esconder o mimo dentro do bóbi. Ela arregalou os olhos, surpresa. Quis fazer uma brincadeira. Não deu outra. Quando a Lourdes desfez o embrulho, quase jogou o bóbi no lixo...
O Cléber foi o único convidado de ontem. Uma pessoa polida, prazerosa. Ele contou coisas de Terenos que nem a Lídia sabia. O caso da mulher que ficou nua em praça pública para o delírio da rapaziada e da aposta em que um jovem saiu pelado pela rua. Ele usou um adjetivo para aquilo tudo que não me recordo qual foi.
Hoje, aos 25 anos, recém formado em Economia, ganha a vida como professor.
A minha vela de aniversário foi dessas comuns. Deixei-a acesa atrás da minha cadeira depois dos parabéns e ela queimou com uma desfaçatez impressionante, uma manifestação do além.
Não deu certo o passeio a Bonito. Retorno depois do almoço a Dourados. Muito papo cabeça rolou ontem à noite, momentos de muita descontração.
Ainda no acampamento, o Bigode me tinha dito que a gente iria pegar bicho de pé. Ontem cedo retirei dois deles.
Existem dias em que o vento fica tagarela demais. Hoje ele não deixa as folhas em paz. Preciso refletir melhor sobre o ermitão. Quem sabe o meu sonho sofra uma grande decepção diante da realidade. Mas a convicção me persegue como uma sombra...
Penso agora em Dourados, em fazer outro programa de índio na última semana de férias. Talvez procure o Félix para conhecer o pesqueiro dele em Rio Brilhante, ou ligue para o Josandro, para irmos ao rancho dele em Jardim ou então convidar o Batista para uma pescaria embaixo de qualquer ponte. Também estou com saudades da Yasmin e aquele “ó” dela.
23 de julho
20 horas. De volta ao aconchego do lar, o aprendiz de ermitão procura entender se é melhor tomar novas lições no mato, se fica por aqui mesmo ou se volta para a escola, para ler mais, ou se fica nas suas verdes, marrons, límpidas, escuras, lisas ou espinhosas inquietações. O ermitão precisa, logo, logo, aprender a cantar com os pássaros e a ter a paciência de uma árvore.
“Mas não custa jogar uma bóia entre as ondas, por via das dúvidas. Talvez haja sobreviventes, e para o náufrago da História uma dica, às vezes, vale uma vida”. (Olavo de Carvalho, o Náufrago e a Bóia, p 23, Revista Bravo!, ABR 2001).
*O autor é jornalista, editor-adjunto de O Progresso; servidor público municipal de carreira; licenciado em Letras pela Unigran e cursando Especialização em Letras, área de concentração: Teoria da Literatura e Literaturas de Língua Portuguesa, na UFMS.
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