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Os jardins estão mais tristes

03/11/2007 às 15:56

No dia 1º de novembro do ano da Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de 2007, véspera de Finados, morreu em Dourados (MS) o engenheiro florestal Bernardino da Costa Bezerra, aos 68 anos, vítima dessa terrível doença identificada pela ciência como câncer, deixando jardins, praças, árvores, pássaros, sementes, amigos e parentes tristes.

Uma das poucas pessoas da cidade que gostava verdadeiramente das plantas e vivia em função delas descansou em sono eterno, mas antes disso, há seis dias, no hospital, doou uma muda da incorruptível pau-brasil para ser plantada no Parque dos Ipês em homenagem a um outro grande ecologista local, Primo Vicente Fioravante, morto em 2002, e uma de jacarandá, madeira de lei, ao servidor José Gilmar Alves Dantas, esse há 30 anos cuidando dos jardins públicos locais. Duas espécies símbolos do Brasil.

As plantas, a natureza como um todo, desde quando o Mundo se tornou habitável, vem presenteando os homens com sua beleza, alegria, perfume e espinhos também para mostrar que nem tudo são flores na vida, a exemplo da morte. Mas o homem, em sua falha consciência, nem sempre retribuiu essa dádiva, notando mais os espinhos do que esplendor de uma rosa ou o espetáculo de uma orquídea, isso para não mencionar a ganância pelo possuir a custa da destruição.

Bernardinho Bezerra remava excentricamente contra essa onda devastadora, embora poucos douradenses saibam que os canteiros centrais e praças se tornaram mais belos depois que ele passou a tomar conta deles e deixou alguns discípulos fiéis dando continuidade ao trabalho depois que se afastou do serviço público.

Por várias vezes, eu municiado avidamente com a caneta e o caderno e ele com o conhecimento acumulado, saímos pela cidade para fazer matérias sobre as flores, os jardins e os bosques. Mostrava, alegremente, o viveiro de mudas, a árvore do Parque dos Ipês onde ele implantou uma prótese para que ela não fosse sacrificada, as palmeiras adultas transplantadas no trevo da BR-163, no prolongamento da Marcelino Pires, retiradas defronte à Seara, pois, o projeto de duplicação da pista passava insensivelmente por cima delas.

Hoje, essas palmeiras, viçosas, derramam lágrimas pelo homem que as salvou.

Explicava que as plantas na pista de caminhada do Parque dos Ipês tinham sido escolhidas para facilitar o trabalho dos pulmões; que gostava de pescarias, mas não ia atrás do peixe e sequer o retirava da água, mas gostava do som do vento se encontrando com as folhas das árvores; que as flores da área central ajudavam as pessoas a serem mais alegres numa cidade de tantos contrastes como Dourados, onde a violência mora ao lado da felicidade; que o angico identificava um terreno de bastante água.

Capitaneou um projeto para reproduzir plantas nativas e disse que seus aliados eram os macacos pequenos que retiravam as sementes da copa das árvores e jogavam-nas na terra, enfim, foram inúmeras as graças. Na casa dele, o ajardinamento sobrepunha o cimento e a recepção do restaurante familiar na parte da frente, tipicamente de massas, com a réplica de um poço dos desejos na varanda, era feita pelas flores.

O consolo, talvez, se a melancolia ainda não tomou de conta o escopo, seja o fato de que a partir de agora Bernardino que não era tão velho assim em idade e muito jovem em espírito, vai tentar tornar ainda mais belos os jardins do céu para receber alegremente para uma nova vida, sem tristeza, quem mereça o paraíso.

Guimarães Rosa disse: “São muitos e milhões de jardins, e todos os jardins se falam. Os pássaros dos ventos do céu - constantes trazem recados (...)”.

Entre a enorme variedade de flores, nenhuma vive mais do que a artificial. Vive mais porque não tem vida, não tem essência, é apenas imitação. Porque a vida, assim como a planta, um dia se acaba por aqui e como ele diria, vira adubo para uma nova planta.

Mas a flor deixa seu inconfundível perfume no ar.

Descanse em paz Bernardino da Costa Bezerra das Árvores, Flores e Jardins de Dourados...

Os pássaros agora cantam em sua homenagem.




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