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O Ervateiro e o Anta - Teatro

26/08/2011 às 13:47

Comédia em três atos

PERSONAGENS: O ERVATEIRO; A SERIEMA, a amiga; O TUCANO DO ERON, amigo dos dois; O ANTA, amigo de ninguém; O FANTASMA, espírito do Ervateiro.

Apresentação

(Feita por dois atores com o rosto encoberto por máscaras; o primeiro se posta à frente em silêncio, abaixado com uma das mãos no palco, e o outro, logo atrás, apenas curvado, faz a apresentação em tom alegre).

Esta peça é inspirada em fatos reais.

Com pitadas, evidentemente, de surrealismo e ironia.

Em novembro de 2004 a prefeitura instalou no centro de Dourados a estátua do peão dos ervais. Tinha pouco mais de quatro metros de altura, esculpida por Mestre Cilço.

A despeito de críticas, brejeirices e da inerente licença poética, o monumento tornou-se referência, um cartão postal.

Em maio de 2009, em outra gestão, foi alvo de vandalismo público: os pés do ervateiro foram cortados na “boca da noite” e o monumento retirado do centro. Poucos presenciaram a subtração.

A estátua ficou jogada, por meses, no depósito municipal até que, por pressão da sociedade fosse resgatada. Mas o resgate deu-se parcial e superficial e ainda assim por imposição da Justiça.

Sem o mesmo brilho e robustez de outrora foi erguida e escondida num parque da cidade.

Esta é uma estória de intolerância e ciúmes.

Talvez o espírito do peão dos ervais tenha clemência de quem o desdenhou.

O ervateiro, enfim, cantado em prosa pelo escritor Hélio Serejo seria herói, espectro ou outra coisa qualquer?

No conto O flagelo dos ervais, no livro Prosa Rude, edição de 1951, Serejo escrevera: “Um dia, talvez, homens conscientes erigirão, nalguma praça pública, um monumentozinho, como tributo justo de gratidão a esses heróis anônimos...”.  

(A cena passa-se em um bar em pleno centro de Dourados, em uma noite de calor).

ATO PRIMEIRO

Balcão de bar e ao fundo o som de uma guarania (Sugestões: Índia e Recuerdos de Ypacaraí). Galhos de erva-mate pelo ambiente.

CENA I

ERVATEIRO, com roupa típica e vocabulário caipira. Jeitão rústico, tomando canha, já sentindo os efeitos do álcool, pensando em voz alta – Mas a ranchada[1] anda em porvorosa, uma bestice atrás da outra... Inté parece carroça puxada por animár de pêlo curto endoidado! E o guaipeca[2] correndo atrás com um palmo de língua pra fora... Vai morrer o vira-lata... O che patron e os pulíticos não se entendem por causa da caá[3] (fazendo sinal com os dedos mostrando que eles não se entendem por causa do dinheiro)... Isso inda podi dá entrevero[4] e, vai vendo, noize vamu pagá o patu... Dipore nhá-monguetá[5]...

CENA II

Entra a Seriema, animada com o jeroki[6] daquela noite, com trajes caipiras, brincos de mamona e uma boneca feita de espiga de milho.

SERIEMA – Prosiando sozinho camarada Ervateiro? Olha que botões não respondem, dentro ou fora de suas casinhas de pano... Eles são insensíveis, num têm piedade...  

ERVATEIRO – Tá graçadinha nhá Seriema... Toma um trago aí porque à noite inda tá jovem pro jeroki... Faizê digestão aos insetos, cobrinhas e coquinhos que tú certamente engoliste por hoji... Fica zuzubem logo... A noite é longa e promete... Quando tú não consegui mais bate asas vai vê como é duro o chão e quão bom é o gostio de terra... Ehehehehe... Tô qui conversando sim com meus botões, pensando sobre o feitio dos nossos pulíticos e do novo che patron... A ranchada parece desconcertada...

SERIEMA (Desviando o rumo da prosa) - “Como ocê anda passando?”.

ERVATEIRO – Chodido amiga, pero bien contento...

SERIEMA - Aí que lombeira[7]! Vontade de lagartear[8]. Pulíticos, mi erra!... (cospe no chão em sinal de protesto). Só de pensa nesses pulíticos cardidos mi ataca a TPM... Pió que noizê não podi fazê muita coisa... São pió que boca de sapo...

ERVATEIRO – Ando precupado...

SERIEMA (Olhando com curiosidade para o Ervateiro) – O amigo tá carecendo de argo ou deseja confidenciá arguma coisa? Ocê sabe, a minha boca é um túmbalo!... Podi confia...

ERVATEIRO – Tô sabendo... Nos aty guassu[9] da vida a passarinhada num tem segredo...

SERIEMA – A gente pia de montão quase todo dia e fala da vida de todo o erval, mas também ficamus iguár corochiré-pitã[10] novo na muda quando careci, sem dá um pio...

ERVATEIRO – O che patron num qué sabê de queixa e nem de prosa... Anda mandradão[11]. Trata a gente com indiferença, como umbigo, só vai empurrado com a barriga... E noize sendo explorados, sugados e trabaiando como animár de pêlo curto... Dizê o bonzão que queixa é coisa de gente à toa, de comunistinha desbotado e com foice cega... De sordado raso... Deixa fartá côsto[12] pra ele ver os peões lagarteando de vez...

SERIEMA – Mas quar o motivo da estranheza? Ocê bem sabe que esse novo che patron é um traste, a peãozada não confia nele como habilitado[13]... O que tú tá sabendo que noizê num tamu? Porque o che patron tá te dexando encabrunhado?

CENA III

Nisso entra o Tucano do Eron, tipo atlético fazendo pose de galã com plumas nas cores verde e amarela e o bico na nuca.

TUCANO DO ERON – Buenas pessoár do ervá! Temos fuxicos novos?... Coisas como o Sol e a Lua são preguiça, não acabam nunca, além de fofocas, canha e essa coceirinha gostiosa (coça as axilas)... Pioinho bom...

ERVATEIRO – As novidades não são muito boas... O che patron quer esfolar inda mais o nosso couro que já tá em carne viva... A espinhela num guenta mais tanto raído[14] nas costas...

TUCANO DO ERON – É... É dura a vida de pião... Pobri só come migalha do rico... (Põe uma dose no copo).

SERIEMA – Dizem que nada é eterno... A única coisa que é eterna pro povo da ranchada é o sofrimento, a lida dura... Má memo assim ele num se cansa de mbureá[15]... O jeito é luta com dignidade e resi... resi... resignação... Quase que num sai... Ahahahah...

TUCANO DO ERON – A genti num tem escolha... Ou encara a vida de forma positiva ou negativa...

ERVATEIRO – Acontece que o brogodó podi piorá... O che patron parece que quer um cristo prá amendrotá o pessoár que anda descontenti com a assistência e ancim acabá com a chiadeira que num é pouca... Podi inté de sê da morti vir tirar onda por aqui... Quer fazê mais covardia com noizê e inté já teria contratado um carrasco... Ele qué inté diminuí o tempo pro tereré... Tá de traquinagem... O che patron não aceita acordo, nem diálogo... Qué trapaçaiá[16]...

SERIEMA – Mas eu num entendu... O habilitado anterior num era ancim um santo, mas fez coisas boas pra genti... Inté ergueu uma carranca no meio da ranchada prá exaltá o peão do ervá... Feia que dói, mas ninguém é perfeito... Os piãos gostararam e dizem que assusta os maus espritos... Pelo menos reconheceu o trabaio medonho nos ervais...

TUCANO DO ERON – Como são as coisas... A rogância e a consciência quase nunca andam lado a lado... O novo che patron realmente num aceita a crítica de boa fé... Vamu bebê purque são ossos do etílico... (E toma mais um gole).

ERVATEIRO – O novo che patron estaria invejoso... Teme que o outro habilitado vorti pra leva o povo embora e fazê firula política...

SERIEMA – Inveja de homi é pió que de cunhã[17], com certeza... Há um veio ditado: “faça o que faizê por um tempão e num terá mais alma pra sê sarva”...

TUCANO DO ERON – A genti precisa memô tomá cuidado com a rogância, a ambição, o ergoísmo e a impursividade dos outros lógico, as nossas a genti num conta, a genti consegue domar... É um perigo... Acho que aqui ninguém tem planos de morrê hoji...

SERIEMA – Se o che patron tá com dor-di-cotovelo intão é um pobre inocente, um coitado... A traição está na natureza humana... O que o homem faizê de ruim aqui, aqui ele recebi em drobo... Inda bem que eu sou ave bem comportadinha...

CENA IV

Entra o Anta, tipo abestalhado, vestindo macacão cinza, de gorro, com aparência de vilão e imoral, com um machete – facão - na cintura e uma “lapiana”[18]. Apesar de sujeito ruim, é um velho conhecido do Ervateiro e guardam segredinhos entre si. Tem voz fina.

ANTA – Argum entrevero por cá? Quár motivo da tristeza?

ERVATEIRO – Eguapina![19] E toma um gole de canha... Tomou chá de sumiço?

ANTA (Dando um sorriso amarelo) - Qui nada, tou pros ervais carregando raídos... Ocês ouviram as fofocas de que o che patron quer um bode expiatório pra apaga a fogueira da rebeldia de uns poucos dentro da ranchada?... O fantasma negro do infortúnio ronda por aí...

SERIEMA – Tamu desconfiado... Mas o que é um bode expiatório? É um bode que fica espiando a genti tomando banho? Ahahaha...

ERVATEIRO – Deixa de sê besta... Tú é ave e não animár de pêlo curto...

ANTA – Dizem que tem um tár aí que vem fazendo pulítica do contra num sabe? Tá instigando o povo da ranchada...

ERVATEIRO – Tarvez noizê tamus numa rota de colisão, não sabemos e nada pudemos fazê... (Batendo as mãos fechadas).

TUCANO DO ERON – Ocês sabem que safadice pulítica sempre se paga com outra safadice, num tem desavergonhado que perdoa desavergonhado... Mas o fraco sempre tá em desvantagem... A canha começou a subi... Ic (soluço)...

ERVATEIRO – A covardia anda escondida da genti... Será que a vida é só trabaio pesado? Trabaio e mais trabaio? Assim eu fico desanimado pro jeroki ou chego lá com esprito pra entrevero... O lugar anda muito sombrio... Tô vespado[20]...

SERIEMA – É... A genti nunca sabe ao certo onde o destino levará... Nunca sabemos onde se esconde uma petein coatiara[21]... Espero que num corra sangue de inocente...

TUCANO DO ERON – Acho que noizê num tem que fica esquentando a cabeça... O che patron, essas ameaças aí, esses políticus marvados não vão mi aborrece... Hoje vamu festá e se embebedá...

SERIEMA – Às vezes eu num sei o que dizê... Às vezes me sinto sozinha como um repolho no milharal em meio a essa moagem toda...

ERVATEIRO – O perigo só faizê cresce a minha sede por justiça... Eu num tenho planos de morrê hoji... Tenho que viver pra contá a minha própria estória... Quem sabi um dia tenham orgulho verdadeiro de mim e do trabaio de noizê todos, ervateiros, mineiros, piões destes ervais, los muy guapos[22]...

TUCANO DO ERON – Vivemô o tempo da ética perdida...

ANTA – Não se escondi coisas por muito tempo debaixo dos pés de erva-mate...

ERVATEIRO – Temu que fica ticaiatento[23]...

CENA V

Saem do palco a Seriema e o Tucano do Eron dizendo que já vão pro jeroki...

ERVATEIRO – Vamu proveita que só ficou noizê dois e brinca um pouco?

ANTA – Será?... Num é meio arriscado por cá não? Se ficam sabendo do nosso segredinho...

ERVATEIRO – Qui nada, é aqui que os segredos se escondem... Num tem ninguém vendo...

ANTA – Então vamos dá um pulico...

A guarania pára de tocar ao fundo. Uma música mais alegre é entoada. O Anta sobe nas costas do Ervateiro e este começa a pular e a dizer “upa cavalinho”... Dali a pouco o Ervateiro cansa e sobe em cima das costas do Anta... E ficam naquela brincadeira esquisita por algum tempo... De repente, sem mais nem menos, ao pio forte de uma coruja, acontece a tragédia... O Anta saca de sua “lampina” e passa a golpear o Ervateiro que grita, em vão, desesperadamente por socorro... O Anta golpeia até que mata o Ervateiro e, usando o machete, corta-lhe os pés na altura da canela e leva-os como troféu sombrio de um criminoso com mente doentia... Olha para a platéia e diz “Inda bem que ninguém viu” e foge... O corpo, banhado em sangue, fica no palco e com isso fecham-se as cortinas...

ATO SEGUNDO

Abrem-se as cortinas e entram cabisbaixos, de luto, a Seriema e o Tucano do Eron que se sentam em um banco de madeira. Tomam tereré.

SERIEMA – Mas que barbaridade que cometeram com o Ervateiro... Mataram o homem e inda cortaram os pés... Quem teria coragem de fazer uma maldade ancim?... Estou horrorizada, em choque...

TUCANO DO ERON – A genti não devia ter deixado ele sozinho ontem à noite... Eu nunca fui com a cara daquele Anta... Ele sempre foi demoniado... Era conhecido do Ervateiro, mas só arruma confusão e vive bajulando o che patron... Compensa a preguiça no trabaio dedurando os piões e fazendo papel de leva e traz... Um traste...

SERIEMA – Mas eu também tou admirada com uma coisa... Será verdade verdadeira que tão falando pela ranchada que o Ervateiro era filho da lua? Será que esse crime foi passionár? Esse assunto é proibido fala perto das crianças...

TUCANO DO ERON – Filho da lua? Num entendi...

SERIEMA – Oras! Do terceiro sexo...

TUCANO DO ERON – Terceiro sexo?

SERIEMA – É... Gay seu abestado!

TUCANO DO ERON – A tá! Não sabo-lho... Será intão que o Ervateiro era enrabichado com alguém e houve desentendimento? Esse comportamento não é comum aqui na ranchada... Crime passionár ou pulítico?...

SERIEMA – O Ervateiro tão forte, tão seguro de si, bem politizado e defensor do trabaiadô, não tinha vocação à vadiação... Amigo da genti... Sincero com ele memo, não era farso com ninguém... Mas devia tê, lógico, seus segredos... Todos têm...

TUCANO DO ERON – Quem sabe tenha mais genti sapecando o zoinho de porco nesta ranchada... Mais fius da lua...

SERIEMA – Será então que o che patron também é gay? Ele tem a voizê bem fina, assim como o Anta... Má será que isso tem a vê?

TUCANO DO ERON – Tá aí uma coisa que talvez nós nunca vamu sabê direito... Só podemo ficá na desconfiança...

SERIEMA – Noizê num tem nada a ver com isso... O mundo é do terceiro sexo memô, tá fora do eixo... Deixa o povo sapecar a vontade... Vamu fica fora disso sinão sobra pra noizê... Quem mata um, mata dois... Dizem que é melhor ser julgado por seis do que carregado por doze...

TUCANO DO ERON – De um jeito ou de outro o Ervateiro num merecia ser morto... Gay ou não, era nosso amigo do peito, era decente... Os assassinos carecem punição com fogo e sofrer a mais horrível emoção: a culpa!

SERIEMA – O rico costuma usar dinheiro pra alcançá seus propósitos malditos e esse crime pode ser mando de arguem e nunca vamu sabê ao certo neste sertão de injustiças... Podemos saber o que somos, não o que podemos ser...

TUCANO DO ERON – O Ervateiro sempre viverá em nossa mente... Ficamos nós pra conta a história dele...

SERIEMA – Aqui a vingança não costuma encontrá obstáculos... A morte sempre foi implacável... Ma que már o Ervateiro podia tê feito pra merece fim tão horríver? Ser filho da lua não deve se o motivo, nem ser revolucionário... Ou pode?

TUCANO DO ERON – Que os anjos o protejam no sono eterno...

SERIEMA – Nesta ranchada cantarolar é tão fácir como mentir...

TUCANO DO ERON – Tár crime monstruoso e infame revela o que os pulíticos são capazes, como alguns têm gênio maldito... A vida não vale uma agulha... Homens indignos...

SERIEMA – Mas nada compensa mau renome em vida... Esses homens estão manchados pela má fama...

TUCANO DO ERON – Dizem que com a morte, o sono, acaba o pesar da mente, do coração e conflitos...

Nisso passa correndo nos fundos do palco o Fantasma do Ervateiro (com lençol branco sobre o corpo e abertura apenas nos olhos e nariz) atrás do Anta. Passa de volta o Fantasma nas costas do Anta e passa mais uma vez o Anta montado no Fantasma. A Seriema e o Tucano do Eron não notam a movimentação.

SERIEMA – Isso me fez lembrar a lenda do Boicará... O Ervateiro vai vive pra posteridade memô que outros assassinos tentem sangrá sua história...

TUCANO DO ERON – Conta i a lenda...

SERIEMA – Boicará estava morrendo, avista uma estrela no céu e o calô do brilho dessa estrela reanimou ele, devolvendo a vida... Mas a estrela disse: “O Deus menino, Sarvador do mundo, estava pra chegar e abençoaria matas, águas, ventos, campos, os animárs e aldeas”... Boicará então pediu pra o filho de Deus não deixa que os seus irmãos morressem de forma violenta e sofressem porque trabaiavam duro, enriqueciam as fazendas... Desde intão todo homem que mata de forma violenta Boicará acaba endoidecendo ou perde a vida...

TUCANO DO ERON – Intão ele deve ter endoidecido mais uma veizê...

SERIEMA – O crime contra o Ervateiro revortou o povo da ranchada, embora tenha genti que nem deu bola... Os revortados estão a fim de lagartear por três dias em luto e isso vai compromete a produção da erva-mate...

TUCANO DO ERON – Tem muito nhenhenhem[24]. O che patron deve está com a purga atrás da oreia... Ele diz que num tem nada a vê com esse crime, que tinha lá suas diferenças pulíticas com o Ervateiro, mas não a ponto de mandar acabar com a vida dele...

SERIEMA – Vai sabê!... Fica tudo o dito pelo não dito... Num tem testemunha... Nem se sabe se foi o Anta memô que cometeu tár atrocidade...

TUCANO DO ERON – É um ati guassu de vermes pulíticos...

SERIEMA – Os guardas estão vindo pra investigá... Mas eles são dóceis com quem tem dinheiro...

TUCANO DO ERON – Sê honrado é um entre milhares...

SERIEMA – O Ervateiro vai se encontra com seus inimigos no além...

TUCANO DO ERON – Que o tempo pertença a ele, pois, quem vive um dia morrerá...

SERIEMA – Vamos mantê o luto... A razão vive lurtando com a natureza com um olhar risonho e outro em choro...

TUCANO DO ERON – Tu tá sensíver heim Seriema? Diria até inspirada...

SERIEMA – É que a dor e a revórta não deixam meu pensamento e meu coração em paz...

TUCANO DO ERON – A alma do Ervateiro não vai ficá disistraviáda[25].

Passa mais uma vez o Fantasma do Ervateiro correndo atrás do Anta atrás do palco e voltando com um sobre as costas do outro e mais uma vez se revezam na posição. Fecham-se as cortinas.

TERCEIRO ATO

Abrem-se as cortinas e aparecem sentados no mesmo banco conversando o Anta e o Fantasma do Ervateiro.

FANTASMA DO ERVATEIRO – Seu verme inútil! (dando um empurrão no Anta)... Precisava me matar! O que eu fiz para merecê tão triste fim?... Eu sempre fui sincero com ocê... Por que cortar os meus pés? Queria me ver rastejando em outra vida?

ANTA – Eu nem sei o que dizer direito... Nunca creditei em mostrengos da terra e nem de outro mundo e acabei sendo perseguido por ocê... Estou doente da cabeça! (Põe as mãos na cabeça como se estivesse assustado e desesperado)...

FANTASMA DO ERVATEIRO – Não vô largá do seu pé enquanto não vir comigo... Vô assombrar seus sonhos...

ANTA – Mas eu fiz isso por ciúmes e dinheiro! Ocê e o che patron faziam de conta que tinham rusga pulítica, mas se encontravam às escondidas nas arboledas[26]... E depois inda vinha trotiá comigo... O che patron me pagou pra dá um susto apenas, para faze você desisti desse papo de iguardade, minorias, mais ajuda pra piãzada... Mas o capetinha do ciúme e do dinheiro me tomou a ideia...

FANTASMA DO ERVATEIRO – A intenção faz o karma; o dinheiro sobrou procê se iludi com arguma coisa... Ocê não passa de um verme, produto da natureza grossera e com gostio de fel... A minha conduta em terra foi justa, a minha opção sexual não deve ser motivo de mexerico de ninguém...

ANTA – Eu sei que sou bisca, mas se arrependimento matasse... Ainda bem que não mata... Pensei em toma veneno... Ocê tá no céu, mas eu tou no inferno terrestre e os guardas estão na minha captura...

FANTASMA DO ERVATEIRO – Não sinto mais dores, apenas vontade de me vingar de ocê... E um fantasma vingador é um grude... A sua vida está desgraçada... Ocê vai pagá em vida o fogo do inferno!...

ANTA – Me perdoa... Não sei o que faze!... (Ajoelha-se e passa a chorar copiosamente).

FANTASMA DO ERVATEIRO – Quem perdoa é Deus... Sou luz radiante, pura e intensa, tranquila e com todo tempo do mundo pra assombrá a sua consciência...

ANTA – Tô com alucinações, não tenho coragem de usá a lampina contra mim... Aproveitando o bate-papo informár, o diabo tem mesmo chifres, rabo e cheira enxofre?

FANTASMA DO ERVATEIRO – Não sei, estou no céu e não no inferno... Só sei que São Pedro é chato de galocha e tem anjo do pau oco de montão...

ANTA – O que eu vou fazê agora? O dinheiro não me agrada mais... O arrependimento vive me atormetando e inté o porco anda me mordendo... Quando passo bem à noite pra ninguém me vê na ranchada todos os cães ladram... Quero fugi, mas os caminhos estão cercados...

FANTASMA DO ERVATEIRO – É tua sina de agora em diante... Eu me dei muito mal, mas ocê se deu mais mal ainda... Ocê, por fora, uma bela viola, por dentro, pão bolorento...

ANTA – Estou fadigado... Seria prenúncio da morte? Seria a tumba? Vou para os vermes! Que horror! Ervateiro, a genti tinha um caso, mas eu disse que nunca ia me apaixonar... Mas eu me apaixonei... Afinal, os brutos também amam! Ao seu jeito, com truculência, mas amam!...

FANTASMA DO ERVATEIRO – Ocê terá meu perdão quando eu volta à vida! Agora só lhe resta beijar o veneno!... Quem trai e mata dizendo que agiu por amôr merece arder em brasa viva... Ocê é um tolo! De nada adianta derramar lágrimas! Ocê sim vai sentir o bafo do capeta... É mio ocê se entragá pros guardas e sofrer com a própria loucura antes do seu juízo finár...

ANTA – Eu vou gritar! Como fui estúpido, como fui burro... Era feliz mesmo com minhas tontices e besteiras e num sabia... (E grita como uma fera ferida). Eu me perdi na minha prudência... Tou com nojo... Joguei minha vida pros vermes e inda ancim uma paixão como nunca tive... Nenhuma outra alma é tão desgraçada... Achava que não tinha ciúme, mas tinha um ciúme doentio... Estou no fundo do abismo e não mereço perdão...

FANTASMA DO ERVATEIRO – Vou fazer uma exceção. Só perdoou numa condição!

ANTA – Qual? Diga, por favor?

FANTASMA DO ERVATEIRO – Ocê virando pulítico honesto pra ajuda o povo... Mas ajuda de verdadi e não virá demagogo e continua enganando!...

ANTA – Uaaá! Mas aí num tem jeito!...

(Fecham-se as cortinas e elas se abrem novamente com a música”O Vira” do Secos e Molhados e os quatro dançando).

FIM

Notas

Vocabulário extraído das obras “Prosa Rude” e “O Tereré que me Inspira”, ambas de Hélio Serejo.

A lenda do “Boicará” consta no trabalho de Mestrado em Letras da UFGD da acadêmica Dayana Lopes Russo com o título “Hélio Serejo: A Fábula do Erval na Literatura Sul-Mato-Grossense”.



[1] Grupo de pequenos ranchos, geralmente de capim. Lugar onde se trabalha o mate até o ensacamento.

[2] Cachorro pequeno, vira-latas.

[3] Erva-mate.

[4] Grande confusão. Luta corpo a corpo.

[5] Não tem conversa.

[6] Baile.

[7] Preguiça. Desânimo.

[8] Acordar muito tarde ou ficar se aquecendo ao Sol.

[9] Na língua guarani, grande reunião.

[10] Sabiá.

[11] Muito mandão; aquele que determina as coisas com muita energia.

[12] Rês para carne.

[13] Aquele que é responsável pela ranchada ervateira; é o arrendatário de uma determinada zona de erval.

[14] Monte de galhos de ervas que podiam pesar de 150 a 250 quilos.

[15] Gritar, cantar enquanto trabalha.

[16] Fazer trapaça.

[17] Mulher

[18] Faca afiada.

[19] Senta-se

[20] Enraivecido; agressivo como uma vespa.

[21] Cobra.

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