»Coçando verbo

“Putz grilo, que bigodão!”

17/02/2005 às 11:54

A mulher já estava cansada de tanto ver o marido no bar e se sentia não apenas preocupada com o risco do consumo de cerveja em doses cavalares, mas se via dividida, desprestigiada, com ciúme dos amigos e companheiros de bebedeira.
O marido é trabalhador e compreensivo com a família e achava aquela reclamação toda um exagero e por isso relevava as cenas de histerismo, mesmo porque são casados há muito tempo e sempre houve uma galega presente naquele triângulo amoroso.
Quando a mulher ligava no telefone público do bar, o homem se sentia meio ressentido na sua condição de varão da casa, e achava que aquele gesto feria a sua liberdade, o seu direito e ir e vir, de beber uma cerveja onde quisesse.
Os encontros dos pés inchados são um espetáculo. Sempre há uma piada nova, o bozó transforma aqueles barbudos e com fios brancos em verdadeiras crianças, tamanha a descontração, a diversão, a felicidade.
O bar é um clube e todos têm uma estória ou história para narrar, a troca de idéias estimula a “saideira”, a “caideira”, “mais uma”, enfim, aquela rotina de ebriedade absoluta. Mas sem brigas, sem discussões. O dono do bar é amigo de todos, mas exige respeito, postura de gente adulta.
A mulher nunca aprovou dividir o seu marido com aqueles marmanjos e tentava forçar as coisas com seu desarranjo verbal, não admitindo o fato do seu homem ter o umbigo amarrado naquele e em outros bares do bairro, onde impera uma boa amizade.
Brigar não resolve, mas ameaçou provocar uma baixaria no estabelecimento para ver se o marido se envergonhava. Mas que nada. Ali quase todos enfrentam a mesma resistência em casa e o dono do bar é uma espécie de vilão involuntário dessas mulheres aflitas e ansiosas. Afinal, os fregueses vão ao local por livre e espontânea vontade, embora o ambiente seja estimulador.
A esposa pensou inclusive em abrir um boteco na sua própria casa para ver se segurava o marido sob sua vista, mas desistiu da idéia ao pensar melhor nos prós e contras. O marido sofria com essa situação, mas ainda tinha fígado para agüentar alguns anos a mais de cerveja e diversão. Nunca deixou, segundo conta, de dar assistência em casa.
O filho, cansado de ver a mãe reclamando inutilmente, sugeriu-a o uso de um bigode postiço, semelhante ao do dono do bar. Lógico que a brincadeira não passava de uma tentativa para ilustrar, com humor, aquela “divisão”.
Quem sabe o “bigodon” causasse uma reação inesperada no marido, já que a intenção era realmente provocar o brio dele, pois, talvez ele gostasse mais do bar por causa do bigode do dono (e não por causa da bebida!), mesmo porque os dois são bons amigos. Ledo engano. Quando o marido chegou em casa naquela noite, se deparou com a esposa com aquele “bigodão” postiço, uma cena hilária, cômica, inacreditável.
“Putz grilo!”, reagiu, abrindo uma enorme gargalhada e antes de ouvir a mulher se aproximou e tascou-lhe um belo beijo, dizendo-a para não ser ingênua. Jamais a bebida superaria o amor de longos anos. Mas pegou aquele bigode, colocou-o em si próprio e se dirigiu para o bar exibindo a novidade.
Se a moda pega, vai aumentar a população de mulheres usando o mesmo acessório porque, no caso do amigo, um “risco de fios” faz-lhe recordar o feito da esposa e assim diminuiu o tempo de boteco e está indo embora mais cedo.
Os antigos sempre disseram que o bigode impõe algum respeito.
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