»Coçando verbo

O trono do Joãozinho

25/04/2005 às 08:55

Uma cidade, como já lembrou o escritor corumbaense Ulisses Serra (1906-1972) em sua “Maria Bolacha e Josetti”, personagens da obra “Camalotes e Guavirais” (1971), não é feita apenas de prédios, ruas, edifícios, logradouros, estátuas e luminosos. Há os populares oxigenando o cotidiano em meio à fumaça, ao corre-corre, árvores, vozes, ostentações e roncos dos motores e tudo se mescla em um carrossel de normalidade e diversidade.

Por conta desses óculos sociais, talvez o último dos engraxates de Dourados (MS) esteja passando despercebido pela maioria das pessoas, embora ele ainda resista às transformações das lojas e vitrinas do trecho principal da avenida Marcelino Pires, ponto de encontro tradicional, bastante curioso e colorido, onde pessoas com cabelo grisalho atualizam o bate-papo, trocam impressões, jogam dama, fazem jogo do bicho, vendem bilhetes, negociam gado, carros, carros e espicham um olhar para lá e para cá.

Antecipando o 27 de abril quando se comemora, entre outras datas, o Dia do Engraxate, talvez seja interessante lustrar os sapatos do cidadão João Cândido de Souza, o popular Joãozinho, um mineirinho que trocou, por coincidência dos nomes, o patrimônio de Lambari, sua terra natal, pelas ruas largas de Dourados.

A poliomielite não conseguiu tirar a alegria, o ânimo e a prosa animadora desse figurante. Quase todos os dias ele pode ser visto e requisitado entre a sua cadeira de madeira e rodas que parece um trono do rei pobre e o único bar sobrevivente ao mesmo espaço, a famosa CB do Takeo, cujos freqüentadores formam uma espécie de universidade da vida, onze o Zé Pinga marca ponto diariamente com seu compadre Colono.

É natural que o caro leitor possa não encontrar analogia entre o Joãozinho e a urbe, mas há uma década, pouco mais, ainda era comum se ver adolescentes da periferia com as caixas nas costas circulando pelo centro em salutar concorrência:

- Tio!... Vamos engraxar os sapatos, me ajuda com um trocado aí!...

O deputado Geraldo Resende já engraxou sapatos nas ruas e quando foi vereador pela primeira vez exibia um santinho com essa identidade aos sete ventos; o jornalista Elias Ferreira também foi, assim como o ex-presidente da Câmara, Joaquim Soares, entre tantos outros cuja lista não caberia aqui. Por merecimento eles prosperavam e hoje podem muito bem usar sapatos de melhor qualidade.

Então, sobrou o Joãozinho para contar histórias e estórias... Ele sabe causos da arca da velha...

Entre seus clientes habituais estão o neto do Marcelino Pires e um monte de outras pessoas. O jornalista José Henrique Marques, segundo o Joãozinho, é outro que gosta de sentar naquele mesmo trono e sair dali com o seu calçado renovado. Até um varejista, dono de uma rede de lojas com sede no Paraná e filial em Dourados, um dia esteve ali olhando para o vai-e-vem douradense que, em dias de rush, parece um formigueiro.

E todos, além da graxa, seja a importada da Argentina ou não, dos estalos dos panos lustrosos, levam de graça a conversa divertida do engraxate que na escola da vida aprendeu a falar de quase tudo um pouco, exercendo empiricamente a sua relação pública, conhecedor da maioria dos figurões da cidade e até de algumas particularidades inerentes à boca pequena. Não há como se aborrecer diante do homem baixinho, humilde e, aparentemente, feliz da vida, indiferente aos carrancudos e amargos que costumam cruzar a mesma calçada.

É o homem que se abaixa diante do seu freguês para honradamente fazer um trabalho que hoje poucos se dispõem a fazer em troca de um real e cinqüenta e, às vezes, um pouco mais quando senta um fazendeiro com as botas cheias de titicas de gado.

Pode parecer mero olhar de nostalgia, coisa abundante e intrigante, mas o engraxate é outra atividade que está sendo engolida pelo pós-modernismo.

Eu nunca sentei na mesma cadeira, mesmo porque dificilmente ligo para a questão dos sapatos, salvo em momentos especiais – bastam ser confortáveis e resistentes - mas acho curioso ver aquela cena porque me lembro dos engraxates mirins, daquele tempo em que a própria prefeitura patrocinava as caixas e o kit para os garotos e das férias em que passava na casa dos meus avós, em Santa Cruz do Rio Pardo (SP), quando pequeno. Meu tio, poucos anos mais velho, saia todos os dias para engraxar sapatos e ganhar um dinheirinho extra. Era a certeza de doce no final da tarde e eu sempre saia com ele para vê-lo na praça dando um trato nos calçados dos homens. Em casa, quando garoto, sempre era requisitado para essa tarefa e fazia-a prontamente. Do contrário, não saia dinheirinho para a matinê aos domingos e para as balas Chita...

O Joãozinho me faz lembrar, docemente, essa infância e a defesa, calejada pelos anos, pelos menos favorecidos.

É Joãozinho... Certamente, no futuro, muitos irão esquecê-lo, mas não aqueles que saíram com os calçados brilhando de seu trono onde bundas e bundas se revezaram ao longo dos tempos e sapatinhos, sapatos e sapatões estiveram sob seus cuidados como um objeto velho carecendo de uma restauração, de um carinho.

A cidade, sob a perspectiva de uma barata, não seria a mesma sem seus panos!

 

 

 

 

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