»Coçando verbo

O Varão de Plutarco

08/06/2005 às 08:32

Um jovem policial militar contou, de maneira extrovertida, a detenção de 48 pessoas suspeitas de envolvimento em delitos. Parecia roubo de bicicletas, receptação, troca de magrelas por drogas, essas coisas que a crônica policial vive noticiando a rodo.

Até aí, uma história comum se não fosse a façanha dos policiais na arte da compactação: eles enfiaram aquelas 48 pessoas dentro do camburão e algumas bicicletas encontradas na cena do flagrante, no melhor estilo lata de sardinha. Fizeram tal qual mágico que tira o coelho da cartola ou esconde um barco atrás da sua capa preta.

Essa cena por si revela a notória precariedade da estrutura policial e como essa força consegue fazer coisas incríveis quando provocada, apesar de não ser nada legal ver suspeitos e condenados submetidos a condições subumanas para sofrer como sovaco de aleijado, ou, como se diz popularmente, como pé de cego. Mas há quem pense diferente. Principalmente as vítimas.

Na mesma semana em que a tevê trouxe ao público o realismo bárbaro do filme Carandiru – coisas que, aliás, acontecem bem pertinho dos douradenses no castelo da “Phac” - e o escândalo das mesadas gordas, o feedback dos Correios, das propinas cuja fita o próprio governador gravou e espalhou, a história policial do cotidiano caseiro não passa de um dropes de laranja.

É possível mensurar o tamanho da indignação, da estupefação nacional diante desses escândalos? O que é pior: superlotar um camburão ou ficar basbaque diante dos trovões corruptos que soam lá de Brasília por conta das trombadas e desacertos entre os deuses da política?

Que pitomba de democracia é esta? Só vale poder e dinheiro no bolso?

Depois que o Riquinho ouviu falar sobre os zeros do “mensalão”, o senhor Rico começou a coçar a cabeça...

As pessoas, com exceções, naturalmente, parecem anestesiadas. Também pudera. Diante de um cataclismo anunciado com esses escândalos, o sério e honesto acaba se sentindo um idiota. Elas estão pasmas, imóveis e confusas como uma barata acuada no canto da casa e o chinelo do algoz bazófio em seu encalço.

Se as penitenciárias estão cheias de bandidos pobres, como elas ficariam se fossem trancafiados os corruptos, sejam eles ricos ou pobres?

Mas como a massa do País onde a máfia dá as cartas, é possível que tudo acabe em pizza, o que seria uma vergonha ainda maior...

Enquanto pobres mal intencionados e arredios continuam aprontando besteiras pela periferia, os escândalos vão enchendo as mentes com caraminholas e fatos reais que quase nunca chegam aos tribunais. No mesmo ritmo frenético, as histórias de Carandiru vão se repetindo como papagaios de piratas em alto mar, sem ancoradouro certo, ao sabor do vento. Mas apenas com um objetivo: encontrar e surrupiar o tesouro precioso, mesmo que isso custe o sofrimento e a vida de todos os tripulantes da nau maldita.

Honestidade é a palavra-chave, porém rara, para fechar esse tesouro e para mantê-lo seguro e verdadeiramente útil. Honestidade, porém, é uma palavra inexistente no vocabulário dos piratas.

Na terra onde os homens eram ensinados pelo Varão de Plutarco, esses absurdos não aconteciam, embora a ambição fosse igualmente desmedida e as proporções financeiras fossem mais modestas. Talvez seja preciso ressuscitá-lo das cinzas para, pelo menos, ensinar um pouquinho de honestidade, de ética e de verdade nas cercanias de Cabral e na sua capital de saqueadores.

 

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